PAPO TÉCNICO com a engenheira doutora Mariana Marchioni

Mariana Marchioni é especialista na área de drenagem urbana, principalmente com pavimentos permeáveis.

‘É necessário mudar o modo de enfrentar a questão das águas’

As medidas sanitárias servem para diminuir a curva endêmica do coronavírus do mesmo modo que as medidas sustentáveis de gestão de águas pluviais servem para diminuir o hidrograma, ou curva de vazão x tempo. Quem faz o comparativo e expressa preocupação com o tema é a engenheira doutora Mariana Marchioni, especialista na área de drenagem urbana e pavimentos permeáveis.

Para Mariana, é necessário mudar o modo de enfrentar essa questão, evitando soluções que simplesmente empurrem o problema. A profissional, que é pesquisadora no Politecnico di Milano na Seção de Ciência e Engenharia da Água (SIA) do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental (DICA), aponta algumas soluções que considera urgentes, como a adoção de um Plano Diretor de Drenagem Urbana completo, e fala sobre alternativas que qualifica como interessantes e inteligentes, como a pavimentação permeável (modelo comercializado pela Re9), sistema de gestão de águas pluviais que permite o manejo na fonte, mantendo a área útil do terreno. Confira a íntegra da entrevista!

1 – Re9ECO: O Brasil registrou prejuízo de R$ 73 bilhões entre 1995 e 2014 com as enchentes. Falando em Santa Catarina, podemos dizer que o Estado está exposto a desastres naturais recorrentes, com destaque para as inundações. Os danos e prejuízos econômicos de tais eventos são consideráveis, enquanto a capacidade de resposta do Estado é limitada. O que está faltando para resolver essa questão?

Mariana Marchioni: Essa é sem dúvida uma pergunta muito complexa e sem resposta fácil! Antes de mais nada é importante lembrar que RESOLVER de modo definitivo a questão das enchentes é praticamente impossível, pelo simples fato que é um fenômeno natural que sempre aconteceu e vai sempre acontecer – é necessário conviver com as cheias e claramente reduzir ao máximo os riscos e prejuízos, principalmente humanos. O que posso dizer é que é necessário mudar o modo de enfrentar essa questão, evitar soluções que simplesmente empurrem o problema, evitar a ocupação das várzeas e atualizar o manejo tradicional das águas pluviais em ambiente urbano que, hoje, consiste em afastar a água do seu ponto de origem.

2 – Re9ECO: Na sua opinião, o que falta nas legislações ambientais e códigos de obras vigentes no que diz respeito ao manejo sustentável de águas pluviais?

Mariana: Antes de falar em legislação é necessário que cada cidade tenha o seu Plano Diretor de Drenagem Urbana, um estudo detalhado da bacia hidrográfica onde a cidade está localizada, os pontos de inundações, as possíveis soluções, custos etc. As legislações, como por exemplo a de uso e ocupação do solo, devem ser definidas nesse documento.

3 – Re9ECO: Você sempre diz que a legislação é um organismo vivo com data de validade. Por quê?

Mariana: Porque a cidade muda e deve mudar também a legislação. Por exemplo: muitas cidades mencionam nas legislações de uso e ocupação do solo um requisito de área livre de pavimentação, que varia normalmente de 15% a 30%, porém apenas essa medida já não é suficiente no cenário atual de urbanização. Legislações atuais já inserem outros conceitos para ajudar no manejo das águas, como limitar a vazão de saída de um terreno ou exigir a construção de um pequeno reservatório de detenção.

4 – Re9ECO: Você disse recentemente em uma palestra que o hidrograma pré/pós-urbanização, utilizando medidas de manejo sustentável, se assemelha a curva endêmica utilizada para medir a evolução dos casos de COVID-19. Explique, por favor, como funciona o hidrograma e o porquê da semelhança.

Mariana: Antes de tudo, o hidrograma é um gráfico que representa a curva vazão x tempo na seção de saída de um terreno, ou de uma bacia hidrográfica. Com o crescimento urbano esse gráfico tende a apresentar um pico maior, ou seja, a máxima vazão de saída é mais alta, em um espaço de tempo menor devido a menores perdas hidrológicas pela interceptação da vegetação e infiltração, principalmente. As soluções de manejo sustentável têm como objetivo baixar a curva, ou seja, promover o amortecimento da vazão através da redução do pico e, se possível, do volume. Essa redução permite ao sistema de drenagem dar vazão ao escoamento superficial sem causar danos no sistema.

5 – Re9ECO: A Re9 atua com uma solução em drenagem urbana que possibilita através de um sistema de alta tecnologia desenvolver um concreto poroso 100% permeável de baixa manutenção, excelente durabilidade e resistência que, além de eliminar poças d´agua.

Mariana: A pavimentação permeável é um sistema de gestão de águas pluviais particularmente interessante, pois permite o manejo na fonte mantendo a área útil do terreno. É um excelente sistema para ser utilizado em locais que precisam de grandes áreas de estacionamentos, por exemplo. A superfície de concreto permeável também funciona como um filtro, removendo poluentes presentes no escoamento da água de chuva e, assim, melhorando a qualidade da água.

6 – Re9ECO: Você trata a água como um recurso, seja de chuva, de rios ou até esgoto. Por quê?

Mariana: Porque a água é um recurso! Nós precisamos de água para sobreviver. Toda a água presente na Terra, seja na forma de líquido, gás ou gelo; seja água doce, salgada, chuva ou esgoto é a mesma água e em uma quantidade fixa e limitada que passa de estado continuamente em algo que chamados de ciclo da água. A água doce representa 2,5% do volume total de água disponível da Terra e é essencial que venha utilizada de modo sustentável.  Não podemos continuar usando a água potável tratada para vasos sanitários, por exemplo, enquanto ‘jogamos fora’ a água da chuva. O esgoto por sua vez deve ser tratado, claro, mas é importante lembrar que durante o processo de tratamento podemos usar o esgoto para produzir energia e fertilizante.

7 – Re9ECO: Que medidas não-estruturais poderiam contribuir e deveriam constar nas legislações do setor?

Mariana: As legislações, partindo claro de um Plano Diretor de Drenagem detalhado, têm que considerar um conjunto de medidas estruturais e não estruturais no manejo das águas pluviais. No caso de medidas não estruturais, poderia citar modelos de previsão de tempo confiáveis aliados a um sistema de aviso para permitir que pessoas em áreas de risco tomem as devidas providências no caso da ocorrência de uma tempestade, e o estimo de medidas nos lotes, não limitando ações relativas ao manejo das águas pluviais ao sistema urbano de galerias.

8 – Re9ECO: A Itália, onde você está atualmente, está avançada no manejo sustentável dos recursos hídricos, em relação ao Brasil? Cite alguns países ou iniciativas que se destaquem nesta área.

Mariana: A Itália segue diretivas da União Europeia nesse e outros assuntos. Uma iniciativa que gostaria de destacar no caso específico da Lombardia, região que eu moro no norte da Itália, foi a aprovação do regulamento de invariância hidráulica e hidrológica que estabelece limites de vazão e mínimo reservatório para todos os empreendimentos realizados na região com área superior a 300 metros quadrados. Ressalto que algumas cidades no Brasil têm legislações que já mencionam limites desse tipo, como São Paulo, por exemplo.

Conheça nossa entrevistada:

Mariana Marchioni é pesquisadora no Politecnico di Milano na Seção de Ciência e Engenharia da Água (SIA) do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental (DICA). Atua como consultora e projetista na área de drenagem urbana, principalmente com os pavimentos permeáveis. Foi engenheira na área de mercado da Associação Brasileira de Cimento Portland, sendo responsável pelo projeto pavimentos permeáveis e outros projetos ligados a sustentabilidade de sistemas construtivos. Participou da elaboração da norma brasileira de pavimentos permeáveis de concreto (ABNT NBR 16416) e da revisão da norma de pavimento intertravado. Lecionou no curso de Arquitetura do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas. É facilitadora no blog da ConstruLiga.

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Para Mariana, é necessário mudar o modo de enfrentar essa questão, evitando soluções que simplesmente empurrem o problema. A profissional, que é pesquisadora no Politecnico di Milano na Seção de Ciência e Engenharia da Água (SIA) do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental (DICA), aponta algumas soluções que considera urgentes, como a adoção de um Plano Diretor de Drenagem Urbana completo, e fala sobre alternativas que qualifica como interessantes e inteligentes, como a pavimentação permeável (modelo comercializado pela Re9), sistema de gestão de águas pluviais que permite o manejo na fonte, mantendo a área útil do terreno. Confira a íntegra da entrevista!

1 – Re9ECO: O Brasil registrou prejuízo de R$ 73 bilhões entre 1995 e 2014 com as enchentes. Falando em Santa Catarina, podemos dizer que o Estado está exposto a desastres naturais recorrentes, com destaque para as inundações. Os danos e prejuízos econômicos de tais eventos são consideráveis, enquanto a capacidade de resposta do Estado é limitada. O que está faltando para resolver essa questão?

Mariana Marchioni: Essa é sem dúvida uma pergunta muito complexa e sem resposta fácil! Antes de mais nada é importante lembrar que RESOLVER de modo definitivo a questão das enchentes é praticamente impossível, pelo simples fato que é um fenômeno natural que sempre aconteceu e vai sempre acontecer – é necessário conviver com as cheias e claramente reduzir ao máximo os riscos e prejuízos, principalmente humanos. O que posso dizer é que é necessário mudar o modo de enfrentar essa questão, evitar soluções que simplesmente empurrem o problema, evitar a ocupação das várzeas e atualizar o manejo tradicional das águas pluviais em ambiente urbano que, hoje, consiste em afastar a água do seu ponto de origem.

2 – Re9ECO: Na sua opinião, o que falta nas legislações ambientais e códigos de obras vigentes no que diz respeito ao manejo sustentável de águas pluviais?

Mariana: Antes de falar em legislação é necessário que cada cidade tenha o seu Plano Diretor de Drenagem Urbana, um estudo detalhado da bacia hidrográfica onde a cidade está localizada, os pontos de inundações, as possíveis soluções, custos etc. As legislações, como por exemplo a de uso e ocupação do solo, devem ser definidas nesse documento.

3 – Re9ECO: Você sempre diz que a legislação é um organismo vivo com data de validade. Por quê?

Mariana: Porque a cidade muda e deve mudar também a legislação. Por exemplo: muitas cidades mencionam nas legislações de uso e ocupação do solo um requisito de área livre de pavimentação, que varia normalmente de 15% a 30%, porém apenas essa medida já não é suficiente no cenário atual de urbanização. Legislações atuais já inserem outros conceitos para ajudar no manejo das águas, como limitar a vazão de saída de um terreno ou exigir a construção de um pequeno reservatório de detenção.

4 – Re9ECO: Você disse recentemente em uma palestra que o hidrograma pré/pós-urbanização, utilizando medidas de manejo sustentável, se assemelha a curva endêmica utilizada para medir a evolução dos casos de COVID-19. Explique, por favor, como funciona o hidrograma e o porquê da semelhança.

Mariana: Antes de tudo, o hidrograma é um gráfico que representa a curva vazão x tempo na seção de saída de um terreno, ou de uma bacia hidrográfica. Com o crescimento urbano esse gráfico tende a apresentar um pico maior, ou seja, a máxima vazão de saída é mais alta, em um espaço de tempo menor devido a menores perdas hidrológicas pela interceptação da vegetação e infiltração, principalmente. As soluções de manejo sustentável têm como objetivo baixar a curva, ou seja, promover o amortecimento da vazão através da redução do pico e, se possível, do volume. Essa redução permite ao sistema de drenagem dar vazão ao escoamento superficial sem causar danos no sistema.

5 – Re9ECO: A Re9 atua com uma solução em drenagem urbana que possibilita através de um sistema de alta tecnologia desenvolver um concreto poroso 100% permeável de baixa manutenção, excelente durabilidade e resistência que, além de eliminar poças d´agua.

Mariana: A pavimentação permeável é um sistema de gestão de águas pluviais particularmente interessante, pois permite o manejo na fonte mantendo a área útil do terreno. É um excelente sistema para ser utilizado em locais que precisam de grandes áreas de estacionamentos, por exemplo. A superfície de concreto permeável também funciona como um filtro, removendo poluentes presentes no escoamento da água de chuva e, assim, melhorando a qualidade da água.

6 – Re9ECO: Você trata a água como um recurso, seja de chuva, de rios ou até esgoto. Por quê?

Mariana: Porque a água é um recurso! Nós precisamos de água para sobreviver. Toda a água presente na Terra, seja na forma de líquido, gás ou gelo; seja água doce, salgada, chuva ou esgoto é a mesma água e em uma quantidade fixa e limitada que passa de estado continuamente em algo que chamados de ciclo da água. A água doce representa 2,5% do volume total de água disponível da Terra e é essencial que venha utilizada de modo sustentável.  Não podemos continuar usando a água potável tratada para vasos sanitários, por exemplo, enquanto ‘jogamos fora’ a água da chuva. O esgoto por sua vez deve ser tratado, claro, mas é importante lembrar que durante o processo de tratamento podemos usar o esgoto para produzir energia e fertilizante.

7 – Re9ECO: Que medidas não-estruturais poderiam contribuir e deveriam constar nas legislações do setor?

Mariana: As legislações, partindo claro de um Plano Diretor de Drenagem detalhado, têm que considerar um conjunto de medidas estruturais e não estruturais no manejo das águas pluviais. No caso de medidas não estruturais, poderia citar modelos de previsão de tempo confiáveis aliados a um sistema de aviso para permitir que pessoas em áreas de risco tomem as devidas providências no caso da ocorrência de uma tempestade, e o estimo de medidas nos lotes, não limitando ações relativas ao manejo das águas pluviais ao sistema urbano de galerias.

8 – Re9ECO: A Itália, onde você está atualmente, está avançada no manejo sustentável dos recursos hídricos, em relação ao Brasil? Cite alguns países ou iniciativas que se destaquem nesta área.

Mariana: A Itália segue diretivas da União Europeia nesse e outros assuntos. Uma iniciativa que gostaria de destacar no caso específico da Lombardia, região que eu moro no norte da Itália, foi a aprovação do regulamento de invariância hidráulica e hidrológica que estabelece limites de vazão e mínimo reservatório para todos os empreendimentos realizados na região com área superior a 300 metros quadrados. Ressalto que algumas cidades no Brasil têm legislações que já mencionam limites desse tipo, como São Paulo, por exemplo.

Conheça nossa entrevistada:

Mariana Marchioni é pesquisadora no Politecnico di Milano na Seção de Ciência e Engenharia da Água (SIA) do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental (DICA). Atua como consultora e projetista na área de drenagem urbana, principalmente com os pavimentos permeáveis. Foi engenheira na área de mercado da Associação Brasileira de Cimento Portland, sendo responsável pelo projeto pavimentos permeáveis e outros projetos ligados a sustentabilidade de sistemas construtivos. Participou da elaboração da norma brasileira de pavimentos permeáveis de concreto (ABNT NBR 16416) e da revisão da norma de pavimento intertravado. Lecionou no curso de Arquitetura do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas. É facilitadora no blog da ConstruLiga.

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2020-08-10T11:45:16-03:00